Quinta-feira, 14 de Junho de 2012
publicado por JN em 14/6/12

OS SÍTIOS SEM RESPOSTA

de Joel Neto (Porto Editora, 2012)


Pré-publicação:

 

Será mesmo proibido

mudar de clube?

 

Dez anos depois de “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas”, Joel Neto regressa à ficção. A J antecipa, em primeira mão, três excertos de “Os Sítios Sem Resposta”, nas bancas a partir desta terça-feira, com chancela da Porto Editora

 

«Mudei de clube num dia de Novembro. O sol jorrava sobre Lisboa, que o recebia com um misto de gratidão e rancor – e, no entanto, nem o mês em curso nem as condições meteorológicas vigentes, extraordinárias mas não inéditas, tiveram o que quer que fosse a ver com a minha decisão.

O que aconteceu, no essencial, foi o que sempre acontecia às segundas-feiras: estávamos os três, eu, Pedro e Alberto, prolongando o almoço muito para lá do devido sob o sol tardio de um daqueles Outonos ferventes após os quais só podia vir chuva, muita chuva, muito mais chuva do que era suposto um Deus misericordioso derramar sobre as suas criaturas – e, naturalmente, falávamos de futebol. Até que,  ao concluir outra das suas habituais dissertações sobre as origens de nova e inexorável série de derrotas do Sporting, a fé que nos unia e nos puxava para baixo e nos tornava a unir lá no fundo, Alberto ergueu o terceiro uísque:

– Que se lixe. Um homem muda de mulher, muda de partido, muda de religião, muda de tudo aquilo que quiser, até de sexo, mas de clube é que não muda nunca. Portanto, viva o Sporting!

E eu, como se não pudesse evitá-lo, dei por mim de repente:

– Mas não muda porquê?

E logo a seguir, incapaz de conter-me ainda:

– Uma merda, é que não muda… Pois escreve aí direitinho, que é para depois não te esqueceres: eu agora sou do Benfica.

Dei por mim a dizê-lo e, ainda por cima, a gostar de ouvir-me dizê-lo:

– Aí tens. Sou do Benfica. Mudei para o Benfica. Mudei para o Benfica e agora quero é que o Sporting vá morrer longe.»

 

***

 

«O dia em que pela primeira vez recebi a visita da executiva dos sapatos de vidro foi uma quinta-feira, antevéspera de Natal. Como de costume, eu optara por não tirar férias durante a quadra, aproveitando o silêncio da empresa, a libertadora desolação de Lisboa e a quase total ausência de clientes (embora não para a malta do Departamento de Sinistros, atarantada com a profusão de acidentes ocorridos ao longo da quinzena) para queimar duas semanas de trabalho e justificar-me por não voltar a São Bartolomeu pelas festas. Estava ainda a dormir no momento em que fui acordado pelo som do telefone – e, quando do outro lado soou finalmente uma voz, não ouvi mais nada senão:

– Às sete?

Fiquei calado durante alguns segundos, incerto ainda sobre se o telefone tocara mesmo e se, de facto, alguém dissera aquelas palavras: “Às sete?” Mas a verdade é que a voz que roufenhara do outro lado da linha continuava lá, à espera de uma resposta. Eu escutava um leve arfar, um fole compassado que parecia fazer vibrar o telefone junto ao meu ouvido – e a curiosidade sobre de quem se tratava e o que pretenderia essa pessoa, reforçada pelo silêncio que entretanto se substituíra àquela críptica pergunta inicial, apenas acentuava a estranheza imensa que era acordar com uma voz.

Limitei-me a devolver:

– Perdão?

E então a voz voltou:

– Às sete?

Ocorreu-me que fosse engano. Depois censurei-me por essa persistente incredulidade que me enegrecia o espírito – mas logo tornei a desconfiar. O mais provável era que se tratasse de uma brincadeira – e, no curto leque de potenciais humoristas, não me ocorria outro senão Alberto,  amargurado e cheio de boa vontade, determinado a lançar água sobre a fervura da nossa pequena disputa, propondo tréguas da forma mais dissimulada e indolor possível.

Na realidade, era difícil determinar o que quer que fosse sobre a voz. Até àquele momento, eu sabia apenas uma coisa. Melhor, duas. Primeiro, que era uma voz de mulher (e eu recebia cada vez menos telefonemas de mulheres). Segundo, que nunca a tinha ouvido (eu não tinha por hábito esquecer uma voz de mulher).

De maneira que, para cobrir todas as possibilidades e manter em aberto as diferentes perspectivas, decidi responder apenas: “Às sete”, no momento em que a voz se cansasse de esperar e repetisse ainda uma última vez a pergunta inicial. E, quando ela o fez e eu balbuciei a anuência, ainda a medo e como quem espera uma reacção, a mulher desligou de uma vez a chamada, sem um comentário, sem uma despedida, sem nada. Escutou com indiferença aquelas duas palavras vazias:

– Às sete.

E já não voltou a falar, limitando-se a pousar o auscultador, com a secura perturbadora de quem vê cumprida a mais insignificante e aborrecida tarefa do dia.

Eram sete e meia da manhã – e, de súbito, as quase doze horas que mediavam aquele momento e as sete da tarde, contanto fosse das sete da tarde que se falava, pareceram-me uma eternidade. Para além do mistério óbvio sobre as reais intenções por detrás daquele telefonema, e que a agitação quase me fizera relegar para segundo plano, o facto é que havia algo como que de terrível naquela voz. E a revelação do castigo que ela me trazia, a dúvida quanto ao que, afinal, me reservara o destino para o dia em que eu não pudesse mais esconder-me da sua ira, era precisamente a minha grande expectativa para o encontro das sete horas. Partindo do princípio de que se tratava de um encontro.»

 

***

 

«A mulher que me surgiu à frente, quando enfim fui abrir a porta, passavam onze minutos das sete da tarde, era diferente de tudo aquilo que eu esperara. Tinha uns olhos negros e resolutos, e tudo o mais na sua aparência combinava na perfeição com esse aspecto definitivo de quem em todas as circunstâncias faz da vida uma coisa séria, sem uma pausa, sem uma hesitação. Relativamente baixa e vestida com um fato azul-escuro quase colado à pele, num intrincado jogo de curvas e requebros apenas interrompido pelos saltos pontiagudos dos seus sapatos transparentes, e que a quem olhava de longe pareciam feitos de vidro, esforçava-se por parecer mais velha do que de facto era, amaneirando gestos e poses que a frescura do rosto traía com abundância. Mas em nenhum momento perdeu a compostura – e, quando a porta se abriu, deixou cair ao de leve a cabeça para trás, abriu um pouco mais os olhos, a avaliar-me, e depois acenou com veemência, pedindo licença, ou talvez ordenando que se abrissem alas, para entrar num espaço que sem dúvida lhe pertencia.

Manteve-se calada durante bastante tempo, como se o próprio acto de falar estivesse para além das suas responsabilidades – e a sucessão de ocorrências que se esforçou por desencadear nos trinta minutos subsequentes, primeiro como que surpresa pela minha estupefacção, depois quase conformada por ter de arrancar-me à inércia, não é fácil de descrever assim, com palavras apenas. Mesmo agora, neste momento em que a recordo, sou assaltado por um persistente calafrio que me nasce ao fundo das costas e me percorre a espinha, fulminante, como se brotasse das profundezas e se erguesse no ar, desafiando-me com a sua alegria e a sua imundície. No momento em que estalei o trinco da porta, e enquanto tentava ainda perguntar-me quem era aquela mulher, por que me telefonara e o que afinal queria de mim, ela deixou cair o casaco, pousou a pasta com um gesto negligente, descalçou os sapatos um no outro, sem sequer lhes tocar com as mãos, e dirigiu-se à sala com a autoridade de quem a conhecesse desde sempre. Depois, voltou-se para trás, esperou um pouco, encheu o peito de ar, soltou a camisa do cós da saia e abriu os três botões de baixo, um de cada vez. A seguir, tornou a esperar um pouco, arqueando as sobrancelhas – e, então, como eu continuasse ali estático, encostou-se finalmente a mim, à espera de ser persuadida a abrir os botões que permaneciam fechados: tudo com a naturalidade de uma velha concubina que tem de amar depressa porque, entretanto, outros afazeres a aguardam.

Eu continuava atarantado, procurando situar-me no meio daquela farsa – e, incapaz de evitá-lo, olhava e tornava a olhar para a janela, certificando-me de que ninguém estava a ver ou, estando-o, me dissesse que não tinha enlouquecido, que aquilo acontecia mesmo, que bastava esperar um pouco e logo compreenderia tudo. Quando a mulher me encostou à parede e me segurou com ênfase os testículos, no entanto, percebi que tinha uma erecção. No momento em que me beijou, melando-me por completo os lábios, com a língua enfiada bem fundo na minha boca, senti um tal ardor percorrer-me o baixo ventre que por pouco não me vim de imediato. E, tão cedo me abriu a braguilha, me puxou as calças para baixo e me passou a língua ao longo do pénis, do princípio ao fim e depois outra vez ao princípio, desemaranhando com cuidado os pêlos que se eriçavam de surpresa e de desejo, agarrei-me à ombreira da porta da sala, lancei a cabeça para trás e deixei-me conduzir ao quarto.»

REVISTA J (JORNAL O JOGO), 1 DE ABRIL DE 2012

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